Crônica: O valor de uma vida

Antes de mais nada, quero agradecer a todos que me emprestarem um pouco de seu tempo para ler meus textos.
Nesse espaço terão desde textos informativos-argumentativos sobre o cotidiano às resenhas de filmes, séries e outras formas de arte.

Hoje vou começar com uma crônica, que é um texto que se caracteriza por relatar de maneira ordenada e detalhada certos fatos ou acontecimentos. Pode ser algo que realmente aconteceu ou uma narrativa baseada em algo real.

Vamos lá?

O valor de uma vida

por Luciano Levitis

Era uma quarta-feira cinza.

A nebulosidade estava além da atmosfera. Ela emanava dos olhos das três únicas pessoas, que contemplavam o desprezado enterro de Sálvio da Costa Lima. Aquele que há 2 dias era o porteiro do meu prédio. E agora, nem filhos, nem netos ou qualquer outro familiar, prestava homenagem ao simpático senhor, que vivera 72 anos.

– Você é parente dele? – eu perguntei.

– Não, eu sou Flávio, o carteiro que toda semana aparecia pelo edifício do Seu Sálvio. Um bom homem ele.

– Hum… e vocês, são o que dele? – perguntei sussurrando aos outros dois.

– Eu sou José e essa é Rosana, éramos vizinhos dele. E você, quem é?

– Sou o Luciano, moro no prédio que Seu Sálvio foi porteiro, o conheci em minha pré-adolescência. Por vezes, seu Sálvio me chamava para ouvirmos as primeiras notícias da manhã. Sempre quando tinha tempo, eu ia com o maior prazer. Ele era tão educado, tão prestativo… já estou com saudades.

– É uma pena ninguém da família ter vindo né? Fiquei meio abalada com isso. – lamentou Rosana.

Então fomos interrompidos pelo padre responsável pelo enterro de Seu Sálvio. Depois de um discurso de menos de 5 minutos, nos despedimos finalmente, do saudoso porteiro. Eu fiz questão de colocar junto ao túmulo, seu rádio de pilha, companheiro do falecido há décadas.

Cerca de 12 quilômetros dali, perto da minha faculdade, eu me deparo com uma multidão. O local era um cemitério de animais de estimação, rapidamente fui apurar, afinal tinha centenas de pessoas ali, isso me deu uma imensa curiosidade.

– Ei amiga – exclamei -, o que aconteceu aqui mesmo? Algum escândalo, uma tragédia?

– Sim, estamos muito tristes com a morte da Selma. – respondeu uma moça, aparentemente, menor de idade.

– Selma, quem é Selma? – perguntei

– Selma é a cachorra da youtuber Kellen, ela morreu, tadinha. Nós Kelloucos, viemos apoiar nossa diva. – a mesma menina respondeu.

Em silêncio me retirei do local. Eu não precisava ouvir, nem ver mais nada. Já bastava ter contemplado a gritaria de centenas de pessoas, onde muitos deles tiravam selfies, outros choravam, outros brigavam…

Eu me perguntava quantos cachorros morriam por dia no Brasil. Eu me perguntava quantos Sálvios estavam sendo enterrados naquele momento, com meia dúzia de pessoas em seus velórios e enterros. Eu me perguntava, ”Por quê?”’

Então, conclui que quando um rosto passa a ser famoso, sua vida vale mais do que aquele rosto que está ao seu lado. Mesmo quando esse famoso cospe em você. Mesmo quando ele não te toca para tirar uma foto, que inclusive você pagou caro. Mesmo quando ele toma banho imediatamente depois de contatos físicos de seus admiradores, afinal, ele sente nojo deles.

Por fim, uma certeza me veio à mente: mídia, beleza, dinheiro, charme, aplausos, rádios de pilha ou seus donos famosos…

Hoje em dia, coisas assim definem o valor de uma vida.

levitis

Graduando em Jornalismo, apaixonado por culturas, fotografia, cinema, música e (quase) todas as artes. Em uma constante jornada de descobertas e aprendizados. Vamos juntos!

2 comentários em “Crônica: O valor de uma vida

  • 11 de setembro de 2018 em 19:08
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    Pura verdade…
    Nos dias atuais
    Se é dado mais valor ao que temos do que o que Somos.

    Resposta
    • 12 de setembro de 2018 em 10:27
      Permalink

      Perfeito Gersica, infelizmente essa é a realidade…
      Obrigado pelo comentário!

      Resposta

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