Crítica: Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)



O Oscar é hoje e pra quem vai as suas apostas?
Trago hoje a última crítica relacionada aos meus favoritos da premiação deste ano, no título original ”BlacKkKlansman”.

Duração: 135 minutos

Então é isto. Spike Lee alcança a relevância novamente. E o melhor, ele se mostra necessário novamente.

Seu novo filme, “BlacKkKlansman”, embora tenha sido ambientado nos anos 1970, fala muito sobre os tempos em que estamos vivendo; sobre o racismo e a resiliência lamentável do ódio. Sem dúvida, é um dos seus melhores trabalhos e isso quer dizer muito. O diretor de “Malcolm X” tem uma filmografia invejável.

“BlacKkKlansman” conta a história baseada em fatos reais de Ron Stallworth, que se tornou o primeiro policial negro em Colorado Springs. Tratado com condescendência por seus colegas e relegado a um chato trabalho de escrivaninha, ele decide entrar em contato com a Ku Klux Klan, fingindo ser branco. O que segue é uma investigação em duas frentes, com Ron (John David Washington) se infiltrando na Klan por telefone, e seu colega branco Zimmerman (Adam Driver) fazendo isso pessoalmente, fingindo ser o Ron que eles conhecem pelo telefone.

Adam Driver (à esq.) e John David Washington

Embora a investigação da vida real tenha ocorrido em 1978, Lee e seu trio de colaboradores do roteiro movem tudo para o início dos anos 70. Uma transposição sutil que faz a diferença. Em um nível superficial, os estilos do início dos anos 70 são mais divertidos – grandes cabelos, lapelas largas, boca de sino de poliéster e cores brilhantes. E o mais importante, o início dos anos 70 foi turbulento, uma era de política radical. O assassinato de Martin Luther King Jr. era uma lembrança recente e os Panteras Negras ainda estavam ativos.

Essa atmosfera de polarização – a política radical de um lado e o terror nacionalista branco do outro – forma o pano de fundo de “BlacKkKlansman” e torna tudo ainda mais análogo ao atual momento político. Então, como agora, as diferenças políticas não eram sobre dois lados, compartilhando valores similares, adotando caminhos diferentes para os mesmos fins, mas sim sobre dois lados com visões opostas de certo e errado, tentando mover os EUA em direções completamente diferentes.

Lee, que nunca perde o senso de brincadeira, zomba dos estilos e tira o máximo do absurdo de um negro, em umas cenas, Ron faz uma versão nasal para representar uma “voz de branco”, falando coisas racistas por telefone com David Duke. No entanto, a direção de Lee é tão incrível, que ele pode deixar tais alívios cômicos e ainda assim mergulhar em um quase terror, como quando Zimmerman é confrontado por um klansman que o acusa de ser judeu (o que ele é).

Essa fluidez tonal – habilidade de ser divertida e aterrorizante por turnos, incorporando ambos os humores dentro de um tom único, coerente e unificador – é algo que Lee tem sido capaz de fazer desde “Faça a coisa certa”. Ou filmes como “Get Out”  a ” Blindspotting “, de Jordan Peele. O elemento unificador dentro/entre esses filmes é uma suposição de que há algo inerente à vida americana em 2018 que é ao mesmo tempo aterrorizante e absurda.

Para esse fim, os homens da k2 aqui, em todos os seus humores e encarnações – alguns adotando um tom falso de racionalidade, alguns espumando pela boca, de raiva e outros consolando, em sua “humildade”, alguma ilusão de destino genético – são exagerados e totalmente realistas. Lee é pertinente ao enfatizar o ódio moderno dos Klan pelos judeus, assim como aos negros.

O pontapé extra em grandeza vem na analogia com o fato de Charlottesville, apresentando cenas inquietantes para a audiência.  O filme, por fim, nos mostra o quão incerto foi o passado, nos faz perceber o quão instável está sendo o presente e infelizmente nos faz reconhecer o temor do futuro.

Nota: 9/10

levitis

Graduando em Jornalismo, apaixonado por culturas, fotografia, cinema, música e (quase) todas as artes. Em uma constante jornada de descobertas e aprendizados. Vamos juntos!

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