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O que rolou no Festival 3i no Recife

Diretores de redações tradicionais e meios digitais trocaram experiências sobre como lidar com ataques virtuais e polarização e como inovar no meio digital

Foto: Agência Pública


Agência Pública - Erika Muniz, Laís Arcanjo

O Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, iniciativa que promove o jornalismo digital no Brasil, aportou no último sábado, dia 10 de novembro, no Nordeste. Em versão pocket, a nova edição aconteceu no Recife, capital de Pernambuco, e teve como fio condutor busca de alternativas para os jornalistas diante do clima de polarização atual.

A primeira mesa foi direto ao ponto: “Como o jornalismo sobreviveu às eleições” era o mote. Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, especializada em fact-checking, relatou ataques e ameaças sofridas pela sua equipe no período pré-eleições. E lamentou que, ao longo do ano, militantes de esquerda e de direita se comportaram do mesmo jeito, com assédio virtual e ameaças de violência. “Nesse exato momento, [para os críticos] não sou nem de esquerda nem de direita. Na verdade, me sinto no centro e assim continuaremos. Eu checo todo mundo e vocês podem contar com a gente porque a gente vai continuar checando, apesar de isso ser dolorido na pele e no coração”, disse.

Beatriz Ivo, do comitê de conteúdo do Sistema Jornal do Commercio, refletiu sobre o projeto Comprova, em que 24 redações promoveram alternativas de combate a boatos relacionados às eleições presidenciais. E lembrou que as ameaças não são exclusivas do meio digital. “As ameaças digitais têm outra capilaridade, mas precisamos refletir sobre todos os caminhos que tentam calar o jornalismo. O digital nos assombra imensamente hoje, mas no fundo é um método com outra tecnologia para o que ocorre há muito tempo”, pontuou. Para ela, os jornais devem tentar esclarecer o conceito de democracia para que ela seja fortalecida.

A mesa terminou com a jornalista Daniela Pinheiro, chefe de redação da revista Época. Ela mencionou ataques que sua equipe sofreu ao investigar grupos de incitação ao ódio na internet e lamentou a própria ingenuidade ao não terem se precavido contra assédio virtual. “As redações têm que estar preparadas para ter estrutura legal, emocional, psicológica, jurídica e policialesca, até, para lidar com esses tipos de ataques”, defendeu Daniela.

A jornalista, que vivia nos Estados Unidos quando Donald Trump foi eleito presidente, afirmou que a imprensa brasileira precisa fazer um mea-culpa. Cristina Tardáguila complementou: “A gente teve dois anos para não fazer o que os americanos fizeram em relação às eleições de Donald Trump e a gente fez o que eles fizeram, que é perguntar aos políticos exatamente aquilo que eles querem responder, e não aquilo que a gente queria que eles dissessem”.

Foto: Agência Pública

Inovando sem milhões de dólares

Inovação no jornalismo também foi um tema abordado nesta edição do festival, que trouxe dois grandes sucessos na cobertura eleitoral ao palco: o debate presidencial da Band em parceria com o YouTube/Google e o aplicativo Match Eleitoral, da Folha de S.Paulo, que ajudou mais de 1,3 milhão de eleitores a encontrar candidatos a deputado federal, estadual e senador em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O jornalista e pesquisador do Datafolha Jean Souza, que coordenou o projeto Match Eleitoral, explicou que a ideia era utilizar o que se tinha de pesquisa de opinião pública, junto com entrevistas com os deputados que estavam pleiteando cargos, para ajudar o público a escolher. O propósito não era determinar quem seria seu candidato, mas conhecer mais possibilidade e unir as informações do aplicativo com outras fornecidas pela internet, jornais e TV. “Unir pesquisa de opinião, programação e jornalismo é unir competências diferentes com um método confiável e criar um ecossistema de informação. O Match foi a parte boa dessa eleição, em meio ao tanto de desinformação que surgiu. Ele não foi para influenciar, foi só uma ferramenta a mais para ajudar a tomar a decisão do voto”, explicou.

Já a TV Bandeirantes inovou ao unir TV e meio digital no debate do primeiro turno – o único que contou com a presença do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). Enquanto os candidatos debatiam, havia uma Sala Digital. “Pela primeira vez o Google abriu no Brasil os dados de busca minuto a minuto em troca da exclusividade de transmissão do debate na internet no YouTube. E o YouTube promoveu o debate na internet de maneira que a televisão não conseguiria promover”, destacou o diretor de jornalismo da Band, André Luis Costa. Outra iniciativa da emissora foi um debate entre jornalistas da Band e youtubers que se destacam em diversas temáticas. “Esses caras juntos representavam 30 milhões de inscritos no YouTube e, portanto, tinham uma experiência de dia a dia que deveria ser ouvida, e no momento de polarização tão forte era a chance que a gente tinha de mostrar que é possível conversar”, contou André.

A mesa teve também uma apresentação do Chequeabot – um robô que auxilia os jornalistas do site Chequeado, pioneiro em fact-checking na América Latina, a apurar as declarações publicadas nos jornais – e de Ricardo Brazileiro, integrante do LabCoco, um laboratório cidadão que funciona dentro de um terreiro de candomblé em Olinda e oferece capacitação e treinamento para jovens de periferia nas áreas de games, inteligência artificial e programação. “Acreditamos que a tecnologia social é exponencial quando está conectada aos desafios da base, não como um tecnofetiche”, disse Brazileiro; ou seja, a tecnologia trabalhando diretamente nos desafios do seu território, promovendo a transformação.

Como resultado dessa produção e discussão cultural e tecnológica, surgiu o game Contos de Ifá, jogo de estilo ação/estratégia em desenvolvimento no Ilê Axé Oxum Karê, com o objetivo de coletar 256 contos de Ifá para transmitir aos jogadores um conhecimento do universo sob a perspectiva da cultura afro-indígena brasileira.

Financiamento

Encerrando o festival, o público conheceu melhor três iniciativas de jornalismo que conseguiram se viabilizar com modelos bem diferentes – os projetos Além da Cura, Gênero e Número e Coletivo Nigéria.

A jornalista e documentarista Bruna Monteiro e a voluntária Helena Portilho falaram sobre a iniciativa Além da Cura, que em duas campanhas de crowdfunding arrecadou R$ 110 mil para realizar um documentário sobre como mulheres lidam com o câncer, o que faz do projeto um dos mais bem-sucedidos do Norte e Nordeste na plataforma Catarse. Hoje, o grupo tem 15 voluntários e faz palestras, debates, encontros e capacitação, além de seguir produzindo o documentário, que será lançado no próximo ano. “As pessoas escutam quando elas se importam. A causa é um fator social muito importante para viabilizar campanhas de financiamento coletivo, assim como a rede de engajamento e o potencial de inovação da ideia”, disse Helena.

Já Yargo Sousa e Bruno Xavier, do Coletivo Nigéria, apresentaram o coletivo de jornalistas cearenses que produzem documentários com pautas sobre direitos humanos. Eles fazem filmes sob encomenda, principalmente para movimentos sociais, como forma de financiar o conteúdo jornalístico que querem produzir. Outra forma de receita do coletivo vem de editais públicos para a realização de conteúdo audiovisual. “Não arrecadamos recursos propriamente com nosso conteúdo jornalístico, mas o jornalismo nos dá visibilidade e credibilidade para realizar outros trabalhos que nos sustentam”, explicou Yargo.

Para a professora Andréa Trigueiro, que estava na plateia, a mescla entre representantes da imprensa tradicional e empreendimentos de jornalismo independente foi bastante positiva. “É muito boa essa iniciativa de misturar os diálogos porque a gente sabe que a perspectiva de quem está nos veículos tradicionais e de quem está na mídia independente. É muito rico para que a plateia possa tirar suas próprias conclusões. Acho que as falas foram muito enriquecedoras nesse aspecto, entender como funciona a lógica de quem está comandando uma revista como a Época, como funciona o Sistema Jornal do Commercio, de quem está fazendo as checagens e até de quem está monitorando as notícias.”

O Festival 3i é uma parceria entre a Pública, Agência Lupa, Bio Hunter, Jota, Nexo, Ponte Jornalismo, Repórter Brasil e Nova Escola, que se uniram ao Google News Iniciative. No Recife, o evento, sediado na Universidade Católica de Pernambuco, também contou com as contribuições da Marco Zero Conteúdo, coletivo de jornalismo independente local.

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