Tobias Barreto de Menezes – Da literatura, do direito, e da vida escadense

Por Sanchilis Oliveira

Nasceu em 1839, na Vila de Rio dos Campos, um dos grandes nomes da literatura brasileira, que de tão importante recebeu como homenagem póstuma, seu nome na cidade natal, no estado de Sergipe. De personalidade fortíssima, de ideais a frente de seu tempo, e convicções bastante firmes.

Tobias marcou a sua geração, em tempos sombrios para pensadores libertários, e idealistas da igualdade como ele foi. Poeta, filosofo, crítico, jurista, foram alguns dos muitos adjetivos conferidos ao “pensador”, assim podemos denominar Tobias Barreto de Menezes.

Morou em Escada por um período de dez anos, de 1871 a 1881, onde criou o poema “Namoro Não é Crime” um dos principais de sua obra, registrado no seu livro Dias e Noites.

Mesmo com toda riqueza cultural presente na obra e na vida, de Tobias Barreto, a sua importância foi sendo esquecida, se assim podemos definir, ao decorrer dos tempos, em Escada por exemplo, onde Tobias fundou o Primeiro Jornal escrito em Alemão no Brasil, obviamente que para a época foi uma inovação, mas sem muitos consumidores, pela dificuldade com a língua estrangeira.

Algumas inovações tidas como malucas, feitas por Tobias, marcou a sua presença na história da literatura brasileira, como a criação do condorismo, que é uma parte de uma escola literária da poesia brasileira, a terceira fase romântica, marcada pela temática social e a defesa de ideias igualitárias.

Bandeiras das minorias e a defesa dos menos favorecidos era sua paixão, tudo o que fazia, os cargos que ocupou, sempre foi nessa linha de pensamento e atuação, que se fossem medidos, com as métricas da atualidade, seria rotulado como um ativista da esquerda comunista.

Crítico ao sistema e ativista das causas sociais

Tarcísio Augusto presidente da Academia Escadense de Letras (AELE). Foto: Sanchilis Oliveira

Crítico de primeira hora do sistema político e social de sua época, Tobias trás aos dias atuais, onde o conservadorismo anda em alta, algumas reflexões e exemplos, aponta o Presidente da Academia escadense de Letras, professor Tarcísio Augusto, “Podíamos parar e pensar no que Tobias Barreto seria inspiração para a atual geração, os dez anos que ele passou aqui em Escada, produziu muito, foi um momento de grande efervescência criação de sua obra, os cargos que exerceu, ele sempre fazia o possível para se posicionar em favor dos oprimidos, e dos menos favorecidos”.

“Em 1871 quando fixou residência em Escada, tomou conhecimento de alguns problemas políticos e sociais, que envolviam os habitantes da pequena vila, dai iniciou a defesa dos pobres, negros e escravos, massacrados pela aristocracia canavieira da época” afirmou a historiadora Mariinha Leão.

Viveu um paradoxo em sua vida pessoal, ao ter posicionamentos abolicionistas, em defesa da libertação dos escravos, e ao mesmo tempo ser genro de um senhor de engenho que possuía vários escravos em sua propriedade na cidade de Escada.

Mesmo tendo esse vínculo com a aristocracia canavieira, se pronunciava em apoio a aqueles que necessitavam de sua ajuda “Quando o sogro dele morreu, e ele herdou a propriedade e os escravos, uma das primeiras ações tomadas, foi alforriar os negros” frisou o professor Tarcísio.

Uma das coisas interessantes a se destacar, é que a lei áurea foi editada em 1888, dando a tão sonhada liberdade aos negros, mas antes da abolição dada pela Princesa Izabel, Tobias já marcava o seu tempo, e a história de Escada, dando a alforria aos escravos que possuía, e mesmo tendo o gesto de nobreza, foi criticado por abolicionistas do Recife por ter tido tal ato, sendo taxada por seus companheiros como precoce sua ação.

Historiadora escadense Mariinha Leão durante o desfile cívico de 07 de setembro de 2011 – Foto: Divulgação

“Em 1881, houve um grande desentendimento entre Tobias, e os herdeiros do seu sogro, o Coronel João Feliz dos Santos, pelo fato de ter alforriado os escravos herdados por sua esposa Grata Mafalda, tendo a  casa cercada pela polícia a mando do Bacharel Manuel dos Santos Pontual e de seu irmão o Barão de Frexeiras” frisa Mariinha Leão.

Esse senso libertário do Tobias Barreto remete aos dias atuais reflexões importantes, acerca dos posicionamentos contemporâneos relacionados ao poder. Tobias se posicionou em toda a vida, vale salientar que nos momentos mais críticos, em favor das pessoas que o poder deixava a margem, pagando o preço de ser rejeitado socialmente, rotulado como a figura não grata, por não acompanhar o desejo e as práticas da maioria, e se colocar como mestiço.

Os escritos dele em Escada, retratam dois momentos, como rotula Antonio Paim, o primeiro de ecletismo religioso, onde ele esta pensado sobre uma perspectiva mais religiosa, onde ele vai evoluindo seu pensamento, chagando a escrever vários textos criticando determinados posicionamentos da fé católica, dos padres e seguidores da igreja.

Na segunda fase, Tobias passa por um processo de compreensão do pensamento germânico, e toda a influência que ele trás do pensamento cantiano, e do pensamento materialista marxista que ele também usa como fonte.

“O que acho importante do ponto de vista da inspiração, é a gente pegar a ideias de um intelectual que viveu aqui em Escada e usa-las, a gente lembra muito de Cícero Dias, como artista e intelectual, mas pouco se sabe sobre Tobias, que veio muito antes, precisa ser mais explorada essa compreensão sobre ele, se sabe muito dele fora de Escada, mas aqui pouco se explora” destacou o presidente da AELE, Tarcísio Augusto.

Na obra de Tobias Barreto

Já dizia Tobias Barreto em suas celebres frases, “Só é grande a liberdade que sacode a majestade e arranca a juba dos reis”, essa frase bastante conhecida do poeta, nos trás um pouco de sua forma de expressar seu pensamento acerca do jogo do poder e da literatura.

No período de 1874 a 1881, Tobias Barreto inspirado na sociedade escadense, escreve vários poemas, entre eles “Namoro não é crime”, que se torna parte do seu livro “Dias e Noites”, outros poemas como Jeronyma (1871), e Papel queimado (1873), foram produzidos no período que residiu em Escada.

Poeta e Escritor Adriano Sales durante gravação do documentário sobre Tobias Barreto – Foto: Sanchilis Oliveira

“A poesia de Tobias, é uma poesia transcendental, e dependendo do ponto de vista do observador as definições vão variar, eu vejo a poesia dele como atemporal e transcendental, pois ela fica no zig zag, entre o passado e o futuro, onde o presente é apenas um ponto de passagem” destaca o poeta, Adriano Sales.

Como em tudo na sua vida social, muito voltado as causas sociais, na vida poética de Tobias Barreto, a sua referência como ativista das causas dos desfavorecidos, estar de forma marcante em toda a sua obra.

“Namoro não é crime, cujos versos se originaram de um processo judicial, onde Tobias Barreto, advogou para o Sr. Antônio Magnata, que se envolveu com uma jovem escadense, e o juiz considerando que namoro não era crime de acordo com o código criminal iniciou a sentença da seguinte forma: Considerando que namoro não é crime… o poeta aproveitou a sentença e escreveu o poema” frisou Mariinha Leão.

Conhecido por ser um dos principais poemas, de sua obra, “Namoro não é crime que foi escrito em 1874, está eternizado até os dias atuais, e chegou a ser musicado, pelo Coral da Unochapecó, de Santa Catarina.

Poema Namoro Não é Crime (1874)

Imagem: Fundação Joaquim Nabuco

(A um Juiz da Escada)

Considerando que as flores
Existem para o nariz,
E as mulheres para os homens,
Na opinião do juiz;

Considerando que as moças,
Ariscas como a perdiz,
Devem ter seu perdigueiro,
Na opinião do juiz;

Considerando que a gente
Não pode viver feliz
Sem fazer seu namorico,
Na opinião do juiz;

Amemos todos, amemos,
E Cupido quem o diz;
Pois namoro não é crime,
Na opinião do juiz…

“Nós podemos pensar o Tobias Barreto como diria o Silvio Romero, seu amigo e admirador de sua obra, como um solitário de Escada, esse período em que ele viveu aqui, foi de muita efervescência cultural para ele, escreveu muito do ponto de vista acadêmico, da filosofia, e do direito, é uma pessoa que de fato a gente precisa conhecer muito em Escada, por sua importância e sua contribuição para o nosso povo” afirma o professor e presidente da Aele, Tarcísio Augusto.

Mesmo com toda riqueza cultural e filosófica presentes em Tobias, o desconhecimento acerca de suas obras é um fato notório nas pessoas comuns, que afirmam não ter nem ouvido falar no poeta.

“Eu nunca ouvi falar em Tobias Barreto antes, mas é muito bom saber que uma pessoa da importância dele morou aqui em Escada, pena que é pouco explorada sua biografia e sua obra”  comenta a estudante de 16 anos, Ana Letícia.

Tido como sedutor da mocidade com a palavra, na época em que viveu, anos em que a escravatura imperava e as desigualdades eram gritantes no Brasil, Tobias Barreto, que mesmo sendo pouco explorado em Escada, carrega sobre sua história o marco de ter, norteado a sua geração, com tantas obras, para a reflexão da vida do outro, das causas mais ligadas as pessoas, não em detrimento das riquezas, mas do ponto de vista da igualdade e da equidade de acesso, e oportunidade numa sociedade, na época comandada por coronéis da cana, mas que se torna tão atual, por sua linha de pensamento e defesa.

“Do ponto de vista da cultura, as obras de Tobias enriquecem muito a nossa cidade, além de nos deixar uma lição acerca das pautas sociais” afirma Tarcísio Augusto.

Na lista de suas inteligentes frases, está a que ele afirma “Carrego no meu, bolso um craniômetro, com que meço as inteligências pequeninas”, instigando o pensamento crítico acerca da intelectualidade de sua época. E trazendo aos dias atuais essa mesma reflexão acerca desta relação entre poder e poesia, que trás ao debate as grandes mazelas sociais, muitas das vezes esquecidas pela preferencia das elites.

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